No começo do ano passado, Michael Patrick King deixou sua casa em Hollywood e se hospedou em um motel em Palm Desert, Califórnia, para dedicar 16 dias a pensar sobre quatro mulheres cujas opiniões sobre amor, amizade e dinheiro definiram os costumes e o estilo de vida dos solteiros endinheirados na virada do século.
Por cinco das sete temporadas que o seriado esteve no ar, King foi o redator chefe de Sex and the City até que a história se concluísse com um mistura agridoce de alegria e melancolia, quatro anos atrás. No deserto, ele retomou as personagens que haviam propiciado a virada de sua vida, e começou o roteiro da versão cinematográfica da série, que estréia em 30 de maio e marca sua primeira incursão ao cinema como diretor e roteirista, aos 53 anos.
Não só em função de sua idade, King sempre pareceu um porta-voz implausível para a experiência pós-feminista das mulheres de classe média alta. Abertamente gay, ex-coroinha e natural de Scranton, na Pensilvânia, King se tornou o rei da comédia televisiva (também criou a brilhante, mas infelizmente curta, série The Comeback) sem o benefício de uma educação de elite ou das conexões sociais que ela em geral propicia.
Embora a história da cultura moderna esteja repleta de exemplos de artistas e escritores que encontraram a fama como cronistas da vida dos famosos, ainda que tenham começado a vida muito longe da fama, King passou mais tempo distante dos holofotes do que a maioria de seus colegas de profissão.
Mas o sucesso conquistado o levou a iniciar nova carreira como criador de comédias românticas, gênero que, nos últimos anos, foi varrido por um maremoto de filmes narrados do ponto de vista de homens heterossexuais insatisfeitos. Os interesses dele, como mostram Sex and the City e outro roteiro em que está trabalhando, não giram em torno da maneira pela qual pessoas de 28 anos se encontram e apaixonam, mas sim na forma pela qual amor e identidade podem ser reconquistados, o foco central das grandes comédias sobre casais separados e reunidos da década de 30.
No filme, Carrie (Sarah Jessica Parker) voltou para o homem com o qual rompeu mil vezes, Mr. Big (Chris Noth), cujo nome, revela o roteiro, é John James Preston - uma homenagem a Preston Sturges, o cineasta que King mais admira.
O filme reúne Parker, Cynthia Nixon, Kristin Davis, Kim Cattrall e os homens que, nas temporadas finais da série, mantinham as protagonistas enraivecidas, encantadas, calmas e distraídas. O filme se passa quatro anos depois do final do seriado, e é uma tentativa de King de iluminar as complicações da felicidade e a complexidade dos elos de amizade à medida que as pessoas amadurecem. Carrie continua com Big, mas ainda não está casada, e manteve seu velho apartamento.
"Creio que a pior coisa teria sido manter as meninas congeladas no tempo", disse King. "Retomando as coisas no ponto em que as deixamos, como se tivessem acontecido ontem", completou.
Um aspecto da maneira pela qual ele retrata mulheres permanece: a sensação de que elas surgiram do nada, e que não viveram nada que valha a pena mencionar antes de chegar à idade dos sapatos caríssimos e dos vestidos minúsculos com tiras ainda menores. De todos os elementos fantásticos contidos pela série - a roupa exagerada, o estoque abundante de homens bem apessoados-, nenhum parece mais mítico do que a idéia de que Carrie e suas amigas existem sem qualquer genealogia. Em sua recusa de incorporar pais, Sex and the City sempre se pareceu bastante aos clássicos da literatura infantil.
Embora o filme gire em torno do casamento de Carrie e Big, King insistiu em que não haveria pai ou mãe da noiva presentes. "Minha idéia sempre foi a de que essas mulheres foram criadas puramente por Nova York", disse. "O protótipo da série tinha por centro quatro mulheres adultas que formavam uma espécie de família."
Mas essa insistência de King parece representar mais um compromisso para com narrativas de invenção pessoal, para com a antiquada idéia de que Nova York pertence mais aos esforçados, aos esperançosos e aos batalhadores do que aos filhos do privilégio. (É difícil não apontar para o fato de que o nome de Carrie parece ter sido escolhido como referência a outra arrivista urbana, a Sister Carrie de Thedore Dreiser.)
King abandonou a faculdade na Pensilvânia aos 20 anos e se mudou para Nova York, onde encontrou emprego descarregando bagagens de ônibus no terminal rodoviário. "Quando eu era jovem em Nova York, quantos pais de amigos eu conheci? Não muitos", ele diz.
Nas duas décadas que se seguiram, King criou uma vida de insolvência como comediante, dramaturgo, roteirista de TV e, por algum tempo, produtor teatral em Los Angeles. Ele usava o dinheiro que ganhava na televisão para financiar peças que proibia aos críticos que assistissem.
Sucesso tardio como o seu raramente nasce da sorte. Ele teve bons momentos antes de Sex and the City; foi roteirista do seriado Murphy Brown, e conquistou uma indicação ao Emmy. Mas pagar em dia o aluguel sempre foi difícil para ele, mesmo depois dos 30 anos.
"Uma vez encontrei uma amiga na rua, e ela estava bem, estava dirigindo Pirates of Penzance na Broadway. Ela me perguntou como eu ia e eu respondi que precisava de US$ 700 para pagar o aluguel. Ela me emprestou o dinheiro. Era assim que eu vivia", contou.
Mas King jamais sofreu as dúvidas que assaltam outros artistas que vivem situações semelhantes e os tentam a procurar emprego em marketing, ou vendas, ou como professores. "Eu jamais pensei que tinha chegado aos 35 anos e continuava com quatro meses de aluguel atrasado, e por isso talvez devesse mudar de direção", diz. "Eu não era altamente confiante, não achava que fosse um enorme talento que um dia as pessoas perceberiam, mas eu sabia que trabalhava com afinco e que isso um dia daria resultado - talvez não resultado financeiro, mas algum resultado."
A recompensa dele surgiu quando Darren Star, criador de Sex and the City, o contratou, em 1997. Ao assumir a produção executiva da série, King passou a escrever o primeiro e o último episódio de cada temporada, enquanto orientava os demais roteiristas na redação das outras histórias. |