Os governantes militares de MIanmar vêm sendo criticados pela demora em reagir à catástrofe provocada pelo cliclone Nargis, mas o mesmo não pode ser dito da pequena indústria cinematográfica do país, que já está ocupada convertendo a tempestade devastadora em mito.
Numa rua poeirenta ao lado do Parque do Povo, no centro de Yangun, ainda recoberta de árvores derrubadas pelo ciclone de 2 de maio, um ator dança na calçada, vestido de deus. Uma folha de palmeira está presa a sua testa por uma faixa.
"Estamos contando a história do ciclone e do que os deuses fizeram para causar essa tempestade terrível", disse o diretor assistente Li Gong.
O filme está sendo feito por uma empresa privada, mas para a televisão de Mianmar, rigidamente controlada pelo governo militar deste país que é um dos mais isolados do mundo.
"Vamos contar como as ações de um deus podem levar sofrimento ao povo", disse Li Gong.
As superstições são muito fortes entre a população de Mianmar, predominantemente budista, e todos, desde o chefe de Estado, general Than Shwe, até feirantes em Yangun, dependem dos conselhos de videntes e astrólogos para planejar suas vidas.
De acordo com mitos relatados por taxistas em Yangun, o ciclone Nargis - que deixou 134 mil mortos ou desaparecidos e outros 2,4 milhões de pessoas cuja sobrevivência está ameaçada - pode ter sido causado pela insatisfação dos deuses com os 46 anos de governo militar. |